Em uma vila remota nas montanhas, sob o olhar vigilante de dois guardiões de pedra, o jovem Yuru vive uma vida simples e idílica, caçando para sustentar a comunidade e mantendo-se próximo da única família que lhe resta: Asa, sua preciosa irmã gêmea. Asa, por sua vez, cumpre um misterioso "dever" em nome da vila, trancada em uma jaula. Por que Asa é uma prisioneira? E que outros segredos o lar aparentemente idílico de Yuru esconde?
A tranquilidade é destruída quando monstros mecânicos descem dos céus e homens armados com armas letais invadem a vila, massacrando seus habitantes em busca de Yuru. Ao chegar para salvar sua irmã, Yuru se depara com uma garota que afirma ser a verdadeira Asa. Resgatado pelo misterioso comerciante viajante Dera, Yuru é forçado a despertar seus próprios Tsugai, seres que podem ser traduzidos como demônios/gênios (entidades sobrenaturais que vêm em pares) para sobreviver. Agora lançado em um mundo desconhecido, Yuru precisa descobrir a verdade sobre os Tsugai, sobre sua irmã e sobre o destino que o aguarda como uma das "crianças que separam o dia e a noite".
Hiromu Arakawa dispensa apresentações. Criadora de Fullmetal Alchemist, amplamente considerado um dos melhores mangás/animes de todos os tempos, e de Silver Spoon (um slice-of-life aclamado pela crítica), Arakawa retorna ao gênero fantasia com Yomi no Tsugai, sua primeira incursão no gênero desde o fim de FMA. E a expectativa, naturalmente, é altíssima.
Diferente de Fullmetal Alchemist, que começa com uma tentativa fracassada de transmutação humana, Yomi no Tsugai abre com uma violência chocante e imediata. Soldados armados até os dentes invadem uma vila isolada e executam moradores indefesos. O primeiro episódio não poupa sangue, gore ou tensão — prepare-se para ver pessoas sendo "mordidas ao meio por um par de dentaduras flutuantes gigantes invisíveis". É um tom que estabelece desde o início: este não é um mundo gentil.
Diferente de Edward e Alphonse Elric, que cresceram juntos e desenvolveram uma codependência absoluta, Yuru e Asa são estranhos um para o outro. Isso cria uma dinâmica fraternal completamente nova no repertório de Arakawa, com ambos os gêmeos recebendo igual desenvolvimento, algo que não acontecia em FMA, onde Edward frequentemente roubava a cena.
Um dos elementos mais criativos da série é a perspectiva de Yuru. Criado em uma vila isolada sem contato com o mundo exterior, ele vê aviões como "dragões no céu" e carros como "feras mecânicas". Essa estrutura de "reverse isekai" — um personagem do passado/rural sendo jogado no mundo moderno — oferece tanto momentos de alívio cômico genuíno quanto uma reflexão mais profunda sobre como a civilização se afastou de crenças antigas em favor do avanço tecnológico.
Protagonista imediatamente cativante, Yuru não é um garoto amargurado ou excessivamente ingênuo. Ele é competente, gentil e leal — um caçador habilidoso que cuidava de sua vila. Sua força não vem de um desejo de vingança, mas de uma necessidade de proteger e entender.
Os Tsugai de Yuru, baseados em Fujin (deus do vento) e Raijin (deus do trovão) do folclore japonês, são personagens por si só. Eles servem tanto como poder de combate quanto como alívio cômico, comentando as descobertas de Yuru sobre o mundo moderno com um sarcasmo que lembra os melhores momentos de apoio de FMA.
O comerciante viajante Dera é o "guide character" que explica o mundo a Yuru, enquanto Gabby, descrita como uma "versão feminina e ligeiramente mais desequilibrada de Edward Elric", promete ser um furacão de energia caótica.
A colaboração entre Arakawa, Bones, Aniplex e Square Enix é a mesma que produziu Fullmetal Alchemist: Brotherhood (2009-2010). Selo de qualidade inegociável. O estúdio Bones Film, uma divisão específica do Bones responsável por cinematics e projetos de alta prioridade, está no comando da animação. O diretor Masahiro Andō (Sword of the Stranger) traz sua experiência em cenas de ação fluidas e coreografadas com precisão cinematográfica.
Arakawa manteve seu estilo característico de design de personagens, o que significa que fãs de FMA se sentirão imediatamente em casa. Yuru tem um visual que lembra Riza Hawkeye, e as expressões cômicas "super deformed" (SD) continuam presentes. No entanto, há evoluções notáveis: os fundos recebem mais atenção que o habitual para um shonen, e o uso de sangue e violência é mais explícito. As sequências de luta são "mais rápidas e brutais" que as de FMA. A trilha sonora é composta por Kenichiro Suehiro (Re:ZERO, Golden Kamuy), conhecido por sua capacidade de alternar entre momentos de tensão opressiva e beleza melancólica. A abertura, "Tobu Toki" (Time to Fly), é interpretada por Vaundy (um dos maiores nomes do J-pop contemporâneo), enquanto o encerramento, "Tobō yo" (Let's Fly), fica por conta de Yama, conhecida por seu trabalho em Chainsaw Man. Ambas as músicas já foram elogiadas por capturar o tom épico e melancólico da série.
Diferente de Fullmetal Alchemist (2003), que superou o mangá e precisou criar um final original, Yomi no Tsugai não enfrenta esse problema. O mangá já possui mais de 50 capítulos publicados (12 volumes), e a adaptação está seguindo o material fonte de forma fiel, com o primeiro episódio sendo uma reprodução praticamente painel-por-painel do capítulo 1 do mangá.
Yomi no Tsugai representa Hiromu Arakawa fazendo o que faz de melhor: criar mundos ricos, personagens memoráveis e explorar temas filosóficos sem nunca perder o senso de diversão. A diferença é que, desta vez, a autora parece mais disposta a chocar, a subverter expectativas e a entregar um tipo diferente de história — mais brutal, mais misteriosa e, em alguns aspectos, mais madura.
Com a garantia de qualidade da Bones e um elenco estelar, esta é uma estreia que merece sua atenção. A Crunchyroll acertou em cheio ao garantir os direitos de streaming global, e a série tem todos os ingredientes para se tornar o grande shonen da temporada.
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